Incentivo e capacitação
Marcenarias acreanas investem em organização e começam a crescer
Compras governamentais substituem produção sob encomenda e abrem novas perspectivas para marceneiros de Cruzeiro do Sul
Vanessa Brito
Marceneiros recebem consultorias sobre mercado e gestão e cursos práticos sobre a fabricação de móveis
Cruzeiro do Sul - O setor moveleiro do Acre começa a despontar como uma das alternativas produtivas na Amazônia ocidental. Prova disso é o Projeto Madeira e Móveis do Vale do Juruá, que está sendo desenvolvido pelo Sebrae no Acre há pouco mais de um ano. Sediado no município de Cruzeiro do Sul, localizado a 650 quilômetros de Rio Branco, no extremo oeste do Acre e a 250 quilômetros da fronteira peruana, o projeto reuniu 13 pequenos marceneiros e revitalizou a antiga Associação dos Moveleiros da cidade.
Com capacitação e consultoria da Instituição e parceiros, as pequenas marcenarias, muitas ainda instaladas no fundo de quintais, se organizaram para a produção seriada de móveis. Ações de acesso a mercado também foram priorizadas, visando gerar oportunidades de negócios na região Norte, apesar da distância e das dificuldades logísticas de escoamento da produção. As melhores “estradas” do Vale do Juruá são os rios, inclusive o Juruá, um dos grandes afluentes do Amazonas, e os meios de transporte mais confiáveis para cargas, especialmente, são as balsas. Os rios são navegáveis durante praticamente todo o ano.
Novo ciclo
Em 2005, a decisão do governo acreano de realizar licitações públicas para comprar mobiliário escolar na região calhou com as metas da associação e do projeto. Ao vencer uma licitação de R$ 800 mil da Secretaria de Educação do Estado do Acre, a Fábrica de Móveis Kelly, uma das mais bem estruturadas da região, compartilhou a demanda com as demais associadas. Juntas, as 13 microempresas da associação estão produzindo em série carteiras, mesas, estantes e outros móveis, que vão mobiliar as escolas públicas do Vale do Juruá.
Os marceneiros envolvidos acreditam que foi iniciado um novo ciclo na história econômica dessa rica região acreana. Cruzeiro do Sul tem mais de cem anos, é a segunda cidade do Estado e a capital do Vale Juruá. No início do século XX, viveu um período de muita prosperidade, no auge do Ciclo da Borracha.
A produção de móveis no Vale do Juruá sempre foi feita sob encomenda. Os marceneiros de Cruzeiro do Sul mal se falavam. “Cada um trabalhava por si”, conta João Evangelista, um dos donos da Marcenaria J.E. Farias, com 20 anos de atividade. Ele e três irmãos são sócios do empreendimento. O ofício de marceneiro foi aprendido com o pai. “Antes dos cursos, eu não conseguia andar dentro da oficina, por causa da bagunça”, confessa João.
Depois dos cursos e consultorias, ele diz que a empresa está pronta para atender a grandes demandas e para produzir em série e com qualidade. “O governo virou nosso cliente”, diz orgulhoso. A equipe de funcionários cresceu e conta hoje com dez empregados. “A vantagem da associação é que somos concorrentes, mas somos amigos e dividimos o trabalho”, justifica.
Rios são as melhores “estradas”
O mercado moveleiro do Vale do Juruá envolve os municípios acreanos de Tarauacá, Feijó, Porto Valter, Marechal Thaumaturgo, Mâncio Lima e Rodrigues Alves, e também amazonenses, como Guajará e Ipixuna. A BR-364 liga Cruzeiro do Sul a Rio Branco, passando por algumas dessas cidades, mas só é utilizável durante o verão, ou seja, nos meses de estiagem, de abril a outubro. Nos outros seis meses, o transporte de cargas e passageiros só é possível por meio de balsas, que nunca falham, e aviões. Na verdade os rios são as melhores estradas do Vale do Juruá e as balsas são os melhores veículos, que garantem o escoamento de produção e abastecimento da região, ao longo de todo o ano.
A meta da Associação dos Moveleiros de Cruzeiro do Sul é atingir o mercado de Manaus e Porto Velho. “De lá, nossos móveis irão para o mundo”, prevê José Eucimar Souza Sombra, um dos donos do menor empreendimento da associação, a Marcenaria Móveis Sombra, que está instalada no quintal da casa de seu pai. Seis irmãos são sócios do pequeno negócio.
O transporte por balsa é seguro, segundo João. A viagem até o Porto de Manaus, por exemplo, dura, em média, 15 dias. “Rio Branco não é nossa meta, pois o pólo moveleiro de lá é forte concorrente”, analisa Hélio Pedrosa, presidente da associação. “Os melhores mercados para nós são Manaus e Porto Velho, porque há escoamento praticamente todo o ano”, justifica Hélio.
800 horas de aprendizado
O projeto Madeira e Móveis do Vale Juruá do Sebrae ministrou o total de 800 horas de cursos para os 13 marceneiros associados. Quatrocentas horas foram de aulas práticas e a outra metade, em aulas teóricas. Senac e Senai são parceiros do projeto, que também conta com apoio do 61º Batalhão de Infantaria de Selva do Exército, sediado em Cruzeiro do Sul. Equipamentos e treinamentos foram fornecidos por soldados carpinteiros e marceneiros para os associados.
“Os cursos mudaram o nosso comportamento e também nossas idéias”, afirma Hélio Pedrosa, presidente da Associação dos Moveleiros de Cruzeiro do Sul. “Algumas marcenarias estão organizando show room, separado da área de trabalho”, revela Laiz Montenegro Mappes, gestora local do Projeto Madeira e Móveis do Vale do Juruá. Hoje todas as marcenarias integrantes do projeto já estão trabalhando com produção seriada.
Compras governamentais
“O projeto está andando rápido, tendo como referência o fato de que o setor era desorganizado e os empresários não tinham consciência de seu poder político”, observa Leomando Noronha, gerente da Unidade de Indústria do Sebrae no Acre. Segundo o gerente, a partir da organização do setor e revitalização da associação dos moveleiros, o Poder Público começou a perceber a importância do setor na região.
As compras governamentais feitas pela Secretaria de Educação do Estado do Acre foram fundamentais para fortalecer a Associação dos Moveleiros de Cruzeiro do Sul e impulsionar a produção seriada. Seguindo os passos do governo estadual, a Prefeitura Municipal de Cruzeiro do Sul realizou licitação por meio da Secretaria de Ação Social para mobiliar as creches no município, também no ano passado. Novamente uma das marcenarias associadas venceu a concorrência. As compras foram da ordem de R$ 50 mil e a produção seriada das peças também está sendo executada pelas 13 marcenarias.
A Secretaria Municipal de Educação de Guajará (AM) também promoveu licitação na região e a Movelaria Barroso, integrante da Associação de Moveleiros de Cruzeiro do Sul, venceu. Dessa vez, as marcenarias associadas estão produzindo esquadrias seriadas para a nova cliente.
Outra conquista recente, que impulsionou a mudança de patamar da produção moveleira de Cruzeiro do Sul e entusiasmou ainda mais as pequenas marcenarias, foi a doação de um terreno de 60 hectares à associação pela Secretaria de Planejamento e Desenvolvimento Sustentável do Estado do Acre (Seplands).
Semana passada, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) começou a liberar recursos da ordem de R$ 1,5 milhão para a implantação do pólo moveleiro de Cruzeiro do Sul. Estufas, equipamentos e uma central de negócios serão implantados no pólo. Os associados estimam que em dezembro as pequenas marcenarias devem se mudar para o novo endereço, no bairro Humaitá.
Serviço:
Unidade do Sebrae em Cruzeiro do Sul (AC) - (68) 3322-3317
Associação dos Moveleiros de Cruzeiro do Sul (AC) - (68) 3322-2314
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