Empreendedorismo feminino

De sacoleira a empresária do setor varejista

Empreendedora de Montes Claros transformou presente de casamento em ponto de partida para o próprio negócio

Na semana em que se comemora o Dia Internacional do Empreendedorismo Feminino (19 de novembro), um exemplo inspirador vem de Montes Claros, no Norte de Minas. Aos 62 anos, Maria Valdete Ribeiro Pereira esbanja saúde, otimismo e paixão pelo empreendedorismo. Ela faz parte do grupo de 24 milhões de mulheres empreendedoras no Brasil, segundo uma pesquisa da Global Entrepreneurship Monitor (GEM), realizada em 2019 pelo Instituto Brasileiro da Qualidade e Produtividade (IBQP), em parceria com o Sebrae.

Proprietária de três lojas na cidade, ela conta que ter o próprio negócio era um sonho alimentado desde que era criança. “Sou de uma família pobre e, aos 14 anos, já trabalhava em um bar. Sempre gostei de vender e atender bem as pessoas. Tinha em mente que um dia eu teria meu negócio. Então, não fiquei parada esperando as coisas acontecerem – fui à luta e realizei meu sonho.”

Como uma jovem de família humilde se transformou em proprietária de três lojas?  A resposta está num presente dado pelo marido no aniversário de sete anos do casamento do casal: uma quantia em dinheiro para que Maria Valdete pudesse comprar um anel. Ela vislumbrou no mimo a possibilidade de começar seu negócio e levou adiante o projeto.

“Não pensei duas vezes. Peguei o dinheiro e viajei para Petrópolis (RJ), onde pessoas costumavam comprar roupas para revender. Comprei 12 blusas de malha e iniciei um negócio em casa. E nunca mais parei. Trabalhei como sacoleira por cerca de três anos, até que consegui abrir minha primeira loja, bem pequena. Hoje só na ’Nossa Loja‘, no bairro JK, tenho quase dois mil itens em confecções, presentes, brinquedos e papelaria”, relata a empreendedora.

Algum tempo depois de inaugurar a primeira loja, Valdete enxergou um potencial de vendas em Nova Esperança, maior distrito de Montes Claros, distante 23 quilômetros da área urbana. Ali surgiu a segunda loja, a Confecções Alternativa. O terceiro empreendimento foi inaugurado pouco depois, surgindo assim a Quatro Estações, loja exclusivamente de confecções, localizada no centro da cidade.

Gerações de clientes

A paixão pelo comércio, especialmente pelas vendas, é um dom que Valdete cultiva desde criança. “Eu faço o que mais amo depois de Deus e da minha família: atender as pessoas.  Estou na terceira geração de clientes aqui no bairro. Atendi os pais, os filhos e hoje atendo os netos, e nunca perdi um cliente. Eles são meu patrimônio. Me sinto realizada em poder atender e ajudar no que eles precisam. É claro que o lucro é importante, mas suprir as necessidades das pessoas me deixa muito feliz”, comemora.

Desafio x oportunidade

Lutadora e apaixonada pelo que faz, Valdete diz que nunca pensou em desistir dos seus sonhos e sempre encarou os desafios como um estímulo. “Nunca tive medo e nem reclamei de nada. Desde muito cedo trabalhei e enfrentei todas as dificuldades de cabeça erguida, viajei sozinha inúmeras vezes para fazer compras e fiz dos problemas oportunidades. Continuo trabalhando e só vou parar no dia em que Deus fechar meus olhos”, acrescenta.

Características empreendedoras

De acordo com Samira Melo, assistente do Sebrae Minas que atende Valdete por meio do Programa Sebrae na Empresa, ela é um exemplo fiel do que é empreender. “A Valdete tem o que chamamos de tino para os negócios. Sabe correr risco calculado, tem boa relação com colaboradores e uma excelente rede de contatos, gosta de estar com as pessoas, além de ser determinada e apaixonada pelo que faz”, avalia.

“Não posso me dar ao luxo de desistir”

Outro exemplo de mulher batalhadora vem da cidade de Carlos Chagas, no Vale do Mucuri, também em Minas Gerais. A comerciante Estela de Fátima Lima Almeida tomou gosto pelo empreendedorismo ainda jovem, quando fazia artesanato para ter seu próprio dinheiro. Ela faz parte do grupo que começou a empreender por necessidade. “Eu corro atrás porque preciso. Minha vida é uma luta diária, não posso me dar ao luxo de desistir. Ainda mais que, quando comecei, tinha dois filhos para criar”, explica.

A primeira aposta da empreendedora foi numa videolocadora há quase vinte anos. Quando o mercado anunciava o fim desse segmento, ela partiu para um estúdio de fotografia. Atualmente, Estela é dona da Utilidades do Lar e Utilar Fashion que também abriga o espaço para revelação de fotos. 

“O Sebrae sempre me deu muita assistência. Já participei do Empretec e de outros cursos. Até mesmo porque o nosso comércio é bem fraco e a gente luta para mudar isso com campanhas pra chamar a atenção do povo. Sem contar que tem um fluxo muito grande de pessoas que vão embora da cidade e outras que compram nos municípios vizinhos. São desafios para os comerciantes de Carlos Chagas”, enfatiza.

Quando o negócio estava indo bem, Estela se divorciou e teve que dividir os bens conquistados ao longo dos anos. “Cheguei a ter duas lojas. Hoje, estou num ponto menor, mas está indo bem. Nossa cidade ficou fechada por quase dois meses por conta do coronavírus. Quando houve a flexibilização do comércio, meus computadores pifaram e fiquei mais dois meses com a loja fechada, mas ainda assim conseguimos pagar as contas. Agora, com comércio aberto o dia inteiro, está melhor. Tenho muito a agradecer porque muitos aqui não aguentaram e tiveram que fechar as portas”.